Há dias o extraordinário actor e amigo José Raposo falava-me da saudade que tem do Parque Mayer e de fazer teatro de revista. Concordei com ele. A Revista é uma grande escola, um grande ensinamento. Só um grande actor consegue fazer BEM teatro de revista pela metamorfose constante e necessária à correcta transmissão de várias sensações ao público. Por isso, é um género teatral que desgasta qualquer actor, mexendo nas suas profundezas de alma. E assim, lá voltamos à eterna história: o desprezo que o Declamado presta ao mundo da Revista à Portuguesa que não é só uma mostra de puro talento mas uma tradição de décadas. E a prova está, por exemplo, em toda uma História que envolve o Parque Mayer e que foi esquecida mas, felizmente, não por todos. Os actores, os cantores, os bailarinos, as coristas, os músicos, todo o pessoal das variadíssimas equipas técnicas que por lá passaram, não esquecendo nunca, pessoas maravilhosas que faziam daquele espaço magia pura, não esquecem tudo o que lá passaram e fizeram para tornar o teatro de revista mais aceite junto dos pseudo-intelectuais que teimam em considerar que o teatro clássico é que tem valor pela qualidade de interpretação. Esquecem-se, no entanto, do que é mais do que essencial: o público! Esquecem-se que um actor não vive sem público, sem aplausos, o seu alimento mais necessário. Esquecem-se também que o teatro tem que ser feito para os portugueses e poucos são os que pensam nisso. De que vale um texto admirável de Shakespeare ou Brecht se o público não se revê no que vê no palco? O teatro é o barómetro de um povo.
Por isso, também este espectáculo “Agora é que são Elas” merece toda a consideração não só por ser teatro de revista mas pela paixão e dedicação com que vejo que é feito. E o teatro, meus senhores, sem amor não funciona. E quando é amador ainda mais. O coração fica ali, na mão, esperando que tudo corra pelo melhor, que o público adira porque se querem manter no palco, brincando consigo mesmos, com os seus sentimentos e superando-se de cada vez que sobem à cena. É isso que faz o actor, é isso que faz o teatro, é isso que faz o Amador. O teatro Amador é uma escola, é a rampa de lançamento de muitos dos nossos profissionais. Eu próprio começei no teatro amador aos 12 anos, esperando vir a ser quem sou hoje. O Amador alimenta o sonho.
“Agora é que são Elas” é uma Revista que aconselho vivamente, com um guarda-roupa extraordinário que faz ver a muitas companhias profissionais como é possível com poucos recursos mas com muito boa vontade obter fatos avassaladores. Grandes cenários e um elenco que, no mínimo, ganha pela sua genuidade e sinceridade em palco. E é assim que o público agradece, enchendo-lhes a sala sessão após sessão numa carreira que já se faz longa o que, em Portugal, é um autêntico feito. Vão ver!
Viva o Teatro! Viva a Revista! Viva o Amador!
Carlos Quintas