Caro André Martins,
Fico muito satisfeito pela notícia da não demolição da Igreja de Santiago.
Quanto à sua relevância (na minha modestíssima óptica de mero curioso), deixo as seguintes notas (de memória):
O templo – fundado em data desconhecida mas certamente na 1.ª dinastia – apresenta-se, exteriormente, como pouco característico. Salientam-se os janelões laterais a acusar a remodelação tardo-quinhentista e, sobretudo, o portal manuelino.
Interiormente, sei que o pavimento se encontra alteado cerca de 50 cm., devido às cheias e infiltrações do rio (sendo que o próprio portal foi elevado no séc. XIX para a sua posição actual). Existem memórias de lápides armoriadas.
Apresenta-se como templo de nave única, de largura apreciável, coberto por uma só abóbada, bastante bem lançada. Possui “capelas” laterais, inseridas em arcos ladeados por pilares quinhentistas. Não se tratam verdadeiramente de meros altares laterais, adossados às paredes, na medida em que estes se inserem no centro dos referidos arcos, os quais transmitem, por sua vez, a impressão de terem sido “escavados” na espessura das paredes exteriores.
Para mim é impossível não pensar no modelo tardo-medieval das igrejas de nave única com capelas inseridas entre os contrafortes, daí que tenha mencionado a originalidade arquitectónica. Não conheço, com efeito, nenhum outro exemplo semelhante.
Possuirá uma pia e escada helicoidal quinhentistas (que nunca vi).
O coro alto (que parece um depósito de lixo) assenta em três arcos com escalonamento, o maior deles abatido. Neste coro existe um cadeiral maneirista que só pude apreciar do chão da nave mas que me parece uma peça excepcional de marcenaria (ostenta a data de 1634). Está muito degradado mas é, porventura, a peça de maior valor artístico da igreja e parece-me urgente valorizá-lo e alertar o proprietário.
Ainda na nave, existem vários altares laterais que apresentam escasso valor e estão repintados. Destaca-se, no entanto, o belíssimo púlpito do séc. XVII em mármores policromos embutidos.
A parede do arco da capela-mor ostenta um enorme fresco, muito degradado, que, em tempos, apresentou elevado efeito cenográfico, com estátuas e balaustrada de dimensões “monumentais”. A sua raridade impunha um restauro, antes que se perca.
A capela-mor apresenta alta abóbada quinhentista de nervuras, pintada com frescos, mármores policromos embutidos e bons silhares de azulejos setecentistas, embora com muitas falhas.
O altar-mor com colunas salomónicas tem bom risco, parece-me do terceiro quartel do séc. XVII.
Um outro pormenor que confere excepcionalidade à igreja é o facto de a talha revestir também a parte superior das paredes da capela-mor. Trata-se da mesma campanha do trabalho do altar-mor a que a douradura de outros tempos devia conferir uma ainda maior uniformidade.
Na sacristia existe um lavabo do séc. XVII também em embutidos de mármore e um grande arcaz do séc. XVIII.
Perdoem-me a extensão da nota, fruto do entusiasmo, e espero que a memória não me tenha atraiçoado e que a descrição seja fiel à realidade.
Quanto ao património em risco recordo, por exemplo, a belíssima quinta do Furadoro, em iminente risco de derrocada, a vilipendiada capela e o recentemente desaparecido convento da quintinha de Santa Margarida, a fonte armoriada de A-da-guerra, injustamente esquecida, ou a dolorosa ruína de Penafirme…
Também gostaria de destacar o esquecimento a que é votada a capela de N.ª Senhora do Ameal, com a sua rara galilé serliana, torre sineira trecentista e portal lateral de belo risco saído directamente da tratadística de Serlio. O interior também é magnífico.
Sabem se se encontra classificada?
Cumprimentos,
Miguel Santos