Autor Tópico: Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)  (Lida 17784 vezes)

Offline André Martins

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« em: Janeiro 30, 2009, 05:55:02 »
Ouvi hoje de manhã num programa de rádio uma iniciativa da estação  que eu estava a ouvir (RCP) que dá pelo nome de Roteiro do Património degradado em Portugal. Neste tópico acrescentei o desaparecido, já vamos perceber porquê.

Ao ouvir o Professor catedrático convidado do programa, e a reportagem feita em Aveiro pelo jornalista da estação, fiquei quase revoltado com o que se vai passando neste país, onde o Estado investe (será bom investimento?) milhões de euros a salvar a banca "para não dar má imagem do país", mas deixa cair abaixo monumentos classificados como património nacional, e alguns até como da humanidade, como o Convento de Cristo em Tomar, monumentos esses que são a imagem real do país, que vivendo do turismo mostra a quem nos visita as marcas de um passado glorioso para o nosso pequeno recanto da Europa. E assim também vai desaparecendo a memória colectiva de um povo, que é aquilo que mais contribui para a nossa identidade.

Lembrei-me depois da nossa cidade. Torres Vedras não tem muitos monumentos, e os que tem, enfim, não é bom falar como estão, a começar pelo Chafariz dos Canos, exemplo único no país, e completamente desprezado, desculpem a expressão. Não se vêem turistas a visitar a cidade e que passem pelo Chafariz... Que pena,meus amigos. Depois temos as várias igrejas da cidade, umas mais bem estimadas que outras, mas uma pior que todas, votada a um quase abandono: a igreja de Santiago. Corre o sério risco de um dia desaparecer, dando lugar a algum empreendimento imobiliário. O forte de São Vicente, coitado, lá está, mas só em Torres é que não vejo indicações turisticas para os monumentos das Linhas de.... Torres!!! Nada, zero, e olhem que até na Serra do Socorro já há indicações de um roteiro relacionado com as linhas de Torres. Muita juventude de certeza desconhece a existência desse forte que foi o bastião da resistência às invasões Francesas. Para além disso, ainda temos o forte da Forca... Ou será que não temos? Não é acessivel, nem sequer visivel...

Agora digam-me lá: podemos nós torreenses sorrir para o futuro, quando já quase não temos passado? Lembram-se por acaso do Paço do Patim? Desconheço localidade que ignore tanto as suas raízes históricas como Torres Vedras. Nem uma rua sequer tem o nome ou alguma menção a acontecimentos históricos aqui ocorridos. A Alameda das linhas de Torres é em Lisboa, vejam só...

Creio que vale a pena reflectir um pouco sobre isto. Já vou longo na minha prosa, mas senti necessidade de escrever aqui isto, talvez para despertar a consciência colectiva de todos os Torreenses. Não deixemos desaparecer o nosso património, a nossa memória, a nossa identidade cultural e social.


André Martins

Torres Vedras é uma terra privilegiada. Pena é os privilégios não serem para todos...

Offline J. Moedas Duarte

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #1 em: Janeiro 31, 2009, 19:27:46 »
[size=3] Partilho estas preocupações. Há muita pertinência no que diz. Que fazer então?

Continuar a denunciar! Visitar os lugares, tirar fotos e divulgar. Escrever aqui e mandar para os jornais.

Possivelmente já era tempo de se fazer um novo encontro sobre "Preservação do Património Torriense"...

Vamos a isso?

Existe uma Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras. Mas somos poucos a trabalhar lá (total voluntariado!) Tem uma sede ao lado do Teatro-Cine. Era tão bom que aparecesse gente nova a renovar aquilo, com vontade de fazer, com ideias, com generosidade!
[/size=3]
« Última modificação: Janeiro 31, 2009, 19:31:51 por J. Moedas Duarte »
 

Offline André Martins

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #2 em: Fevereiro 01, 2009, 04:24:22 »
Vou deixar então aqui um apelo a todos os Torreenses de alma e coração, para que se indignem perante estas situações. Eu sei que estamos em crise, e outros assuntos certamente causam neste momento mais apreensão. Mas pensar as coisas pode-se sempre fazer.

Gostaria agora de dar mais alguns exemplos de abandono do património no nosso concelho: a Quinta Velha da Ermegeira. Há uns anos decorriam a bom ritmo obras de requalificação da dita quinta, com o objectivo de ali nascer um hotel rural, ou algo do género. De um momento para o outro, as obras pararam, deixando esventrado o edificio principal da dita quinta, e inacabados os arranjos dos outros edificios. Está neste momento tudo desprezado, cheio de ervas daninhas, e silvas.

Porque é que esta situação aconteceu? As obras começaram sem autorização? Não houve fundos que chegassem para arranjar?

Outra situação, esta não tanto da responsabilidade de todos enquanto cidadãos, mas que me dói só de ver: os moinhos abandonados da Freguesia do Maxial, e são dezenas deles, meus amigos, dezenas, e até existe uma azenha, essa ainda com fortes probabilidades de requalificação sem custos muito elevados, pois o edificio ainda se encontra de pé. Alguns destes moinhos vão sendo requalificados, mas por iniciativa particular, não estando por isso abertos ao turismo. Será bom para a nossa cultura, para a nossa memória colectiva, o desaparecimento deste património tão intimamente ligado ao passado ainda não muito distante da economia do concelho?

Hoje fico por aqui, mas voltarei com mais exemplos do nosso património degradado ou desaparecido.
André Martins

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Offline Carlos Miguel

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #3 em: Fevereiro 02, 2009, 19:37:33 »
Não é tanto assim. O Chafariz é Património Nacional e compete ao Estado a sua recuperação. Acontece que o IGESPAR não tem verba para o efeito e a Câmara Municipal vai substituir-se ao estado e avançar com as obras de conservação do monumento e também do arranjo urbanístico da envolvente. Neste momento já fizemos e entregamos ao IGESPAR os trabalhos de sondagens e escavações e esperamos por "luz verde" daquele organismo para avançar com as obras, estando em crer que neste Verão as mesmas terão inicio. Quanto aos Fortes, o de S. Vicente e o dos Olheiros estão recuperados em 2009 e 2010 outros quatro fortes serão recuperados e valorizados. No que se refere à sinalética, ela será comum para todos os Municípios da Plataforma Intermunicipal (Torres Vedras, Vila Franca de Xira, Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agraço, Mafra e Loures.) e ainda não foi projectada.Quanto às igrejas, lembro que em parceria com a Paróquia, a Misericórdia e a Associação de Reformados, existe em programa (ISA- Património) através do qual as igrejas de S.Pedro, Graça, Castelo, Misericórdia e também Turcifal, estão alerta durante o dia permitindo a sua visita.
A igreja de S. Tiago por não ter interesse arquitectónico/patrimonial não consta roteiro. Cumprimentos
 

Offline Pedro Oliveira

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #4 em: Fevereiro 02, 2009, 21:04:15 »
Forte da forca? forte de olheiros? onde ficam?
Pedro Oliveira

(Clique na imagem)

Offline André Martins

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #5 em: Fevereiro 03, 2009, 03:26:51 »
Obrigado por estes esclarecimentos, senhor presidente. A culpa do estado de alguns monumentos não é da CMTV, longe de mim fazer tal acusação, porque sei que não é. Apenas quis passar para aqui algumas preocupações, que devem ser de todos nós. Congratulo-me por saber também que a CMTV vai substituir o Estado (ao ponto que já chegámos) na recuperação do Chafariz dos Canos. Agora uma coisa que acho estranha: a igreja de Santiago não tem interesse arquitectónico/patrimonial? Não é um edificio do século XVI? Quando muito poderia ser declarado património municipal... Não sei se é viável... Assim sendo, corre o sério risco de desaparecer a médio prazo...

Mais uma vez saliento que não quero com este tópico acusar a CMTV do mau estado do património histórico-cultural do concelho, apenas relembrar às gentes desta terra que também temos História, e que corre o risco de se ir esfumando, conforme se vai perdendo o património...
André Martins

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Offline mcarmo

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #6 em: Fevereiro 03, 2009, 17:24:34 »
forte da forca na encosta por trás da agriloja
Mário Carmo

Offline amarques

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #7 em: Fevereiro 03, 2009, 21:13:43 »
É uma boa notícia a nossa autarquia substituir-se ao Governo central na resolução destas pequenas obras de manutenção do seu património. Sons do presente(Yes, we can! - em português: Yes, weekend!!!).
Voltando ao assunto sério, o que nesta fase é crítico, é a autoria e definição do caderno de encargos da obra e a sequente avaliação da competência da empresa contratada (sem concurso) para a realizar.
É muito provável a existência de depósitos arqueológicos nesta área baixa da cidade (por arrastamento na bacia hodrográfica)ou até, e mais natural, ruínas de construções medievais nos estratos mais profundos.
Como sabemos, muitas vezes o barato ou a imprevidência, neste tipo de intervenções, sai-nos caro.
É, no meu entender, necessário requisitar o seguimento das ditas escavações por técnicos qualificados do IGESPAR.
A bem de eventuais achados que, uma vez detectados por quem os reconhece, engrossarão o património histórico do Município.
O facto da Igreja de S. Tiago não fazer parte desse tal Roteiro é uma péssima notícia para a CMTV e para os torreenses em particular.
Para a CMTV porque ela é a guardiã mandatada para zelar por todo o tipo de património histórico ou cultural existente em Torres Vedras. Cargo que aceitou e que agora, pelo que é dito, não consegue levar a bom termo.
Todavia, acresce que não foi mandatada para classificar ou desclassificar o seu património.
Parece-me inaceitável a classificação agora tornada pública (quem pariu tamanho disparate?).
Para os torreenses, lembro que a existência (e o seu valor) deste edifício condicionou, há anos, uma operação urbanística na sua envolvente.
Agora é para demolir? É que se não tem valor patrimonial, nem arquitéctonico, nem funcional e agora lhe é retirado o seu indiscutível valor histórico, justificativo da sua manutenção física, então penso estarem reunidas as condições para uma de duas: ou a surda satisfação pela sua demolição a médio prazo ou a ignóbil paciente espera pela sua derrocada.
Cordialmente,
Afonso Marques

Offline André Martins

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #8 em: Fevereiro 04, 2009, 06:16:02 »
Concordo plenamente. A esse jeito também desapareceu o Paço do Patim... Acho um erro tremendo a Igreja de Santiago não estar classificada... Muitas pessoas certamente pensarão que a responsabilidade da sua conservação será de quem lá vai... Mas as igrejas estão abertas a todos... E esta quer se queira, quer não, é património da cidade.
André Martins

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Offline PraiaSC

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« Responder #9 em: Fevereiro 05, 2009, 16:33:48 »
Patrimonio da cidade, salvo seja é sim patrimonio da paróquia que por sua vez do Patriarcardo, pelo que a meu ver para a CMTV fazer algum investimento (e que deve ser muito) o referido imóvel deveria passar para patrimonio municipal, e aí ser ciado um espaço multicultural para todos os torreenses e visitantes desta nossa terra.
 

Offline André Martins

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #10 em: Fevereiro 07, 2009, 04:02:04 »
Património da cidade enquanto memória.

Hoje meditei sobre outro monumento, que ali está, mas quase ninguém se lembra: as ruínas do antigo convento da Póvoa de Penafirme. Ano após ano, vamos vendo a ruína tornar-se mais ruína, até que um dia tudo aquilo desaparecerá. Não sei se é um monumento classificado pelo IGESPAR, no entanto creio que algumas escavações arquelógicas poderiam mostrar um pouco da vida naquela zona no séc XIII/XIV, quando foi abandonado....
André Martins

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Offline Carlos Miguel

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #11 em: Fevereiro 09, 2009, 19:31:42 »
O facto de não ter relevância e/ou história não significa o seu abandono ou demolição, tão só não é prioritária para a CMTV no que diz respeito a eventual investimentos municipal. Cumprimentos
 

Offline amarques

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #12 em: Fevereiro 10, 2009, 07:20:54 »
É afirmado a Igreja de São Tiago "não ter relevância e/ou história.
Quanto à dita não relevância terá de existir fundamentação científica que dê credibilidade à tese. Só assim terá a minha aceitação. Não dou crédito a julgamentos populares.
Qual o respeitável autor que produziu tal conclusão? onde a publicou?
No que diz respeito à existência de história, cada edifício possui a sua. No caso, uma história com vários séculos para contar. Anos bons, anos maus, invasões, baptismos, velas de defuntos, casamentos, orações de púlpito, etc., quantos destes acontecimentos tiveram lugar no seu abrigo? O que está assente nos seus registos paroquiais? quem está sepultado nas suas criptas ou lages rasas?
Tenho para mim como princípio, de que ao fim ao cabo, não é admissível renegar, omitir ou diminuir qualquer tipo de património histórico (religioso ou não) que descreva uma comunidade ou uma população dispersa.
No limite, é só o que fica como prova da nossa passagem pelo planeta.
Por mais laicos que sejamos.
Cordialmente,
Afonso Marques

Offline André Martins

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #13 em: Fevereiro 11, 2009, 06:03:19 »
Não podia concordar mais consigo, caro Afonso.
André Martins

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Offline miguel santos

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Roteiro do Património Degradado (e desaparecido)
« Responder #14 em: Fevereiro 13, 2009, 04:20:02 »
Parabéns aos intervenientes no Fórum!

O património não pode esperar, se toleramos o seu irreversível desaparecimento, “deserdamos” os nossos filhos.

Gostava de colaborar com a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras. Alguém pode disponibilizar contactos e/ou iniciativas em curso?

A Igreja de S. Tiago é, inequivocamente, a mais original de Torres Vedras, do ponto de vista arquitectónico o que merecia, só por si, classificação municipal. Existem ainda, no seu interior, peças de relevância nacional.

Se bem entendi, discute-se presentemente a possibilidade da sua demolição?

Confesso que fiquei chocado, pois, como já referi, considero-a de extrema relevância. Seria um verdadeiro crime que – não duvido – a autarquia ou a Administração central saberão evitar.